Eu e as oficinas de escrita criativa

king

Depois que consideramos pronta a primeira versão de um conto ou de um romance, começa um novo desespero: quem vai ler? Quem vai querer ler? Alguém vai se interessar em ler? Faz parte da vida do escritor iniciante.

Os que já estão pelo meio da estrada do mercado editorial podem contar com um editor, um agente ou amigos escritores experientes para leitores críticos. Não é esse o caso da maior parte daqueles que ainda aguardam o ônibus no terminal rodoviário da literatura brasileira. Sem o dinheiro da passagem.

Claro, tem os parentes, o cônjuge, amigos dedicados, mas dificilmente serão leituras críticas. Chamo de críticos aqueles que vão perceber deslizes, problemas, incoerências e não vão deixar a gente passar pelo ridículo de mostrar aquilo a alguém menos amoroso.

É em busca dessa leitura crítica que eu gosto de oficinas de escrita criativa. É menos para escrever e mais para ler e ser lida. A velha carência do escritor. Isso mesmo. Nas oficinas que fiz, ouvi críticas assertivas e não mera opinião. E descobri coisas fundamentais para ler.

Continue Lendo “Eu e as oficinas de escrita criativa”

Anúncios

Mosquinha

Não sei da onde, talvez de mim, veio uma mosca rondar minha cabeça e assentar no teto. Insetos têm esse dom. Sentam contra a gravidade.

detalhe_hilma of klint
Detalhes – Hilma af Klint

Passam-se das 11h de sábado. Quarto fechado. Não sei da onde, talvez de mim, veio uma mosca rondar minha cabeça e assentar no teto. Insetos têm esse dom. Sentam contra a gravidade.

O zumbir é implicante. Ela inteira é implicante.

É possível que eu tenha parido essa mosca ou ela seja eu mesma.  Moscas deviam estar dormindo.

Abro a janela, a porta e jogo um travesseiro, pulseiras, um livro, ligo o ventilador de teto. Ela faz apenas alguns milimétricos movimentos, destemida. Eu só quero ler um pouco.

A mosca continua aqui. O barulho das asinhas roçando o teto é nojento.

Vai embora, mosca!

Ou me leva junto, mosca, aqui é perigoso. Aqui a gente sangra de tanto dar murro em ponta de faca. A mosca que se bate entre as paredes e o teto e o chão e as cortinas e as portas quem é. Ninguém sai desse quarto.

Vou acabar deixando a vida nesse quarto. Não me deixa sozinha, mosca.

 

Um livro é um chamado

Fez um mês que o livro “O passado é lugar estrangeiro” foi lançado pela Editora Patuá. Meu romance de estreia, o chamado a me tornar a mulher que tem o meu nome.

 

capaFez um mês que o livro “O passado é lugar estrangeiro” foi lançado pela Editora Patuá. Meu romance de estreia, o chamado a me tornar a mulher que tem o meu nome.

Foi o que escrevi no colofão da edição. Colofão, palavra que só descobri que existe por causa da Patuá, essa criadora de amuletos que completou seis anos. Viva!

Um livro é um chamado, de leitura e de escrita. Não sei quem chama e nem para quê, nem sempre atendo, outras vezes sim. Porém, agora há um livro na prateleira, junto a milhares de outros, qualquer dia desses pode ser aberto e lido.

Não obstante o nome da capa, os livros são amuletos sem dono, os livros são de quem quiser.

Saiba mais sobre o livro, aqui.

Para ler um trecho e comprar um exemplar, aqui.

 

Vasos mortos

Eu tenho quinze vasos mortos na varanda de casa. Não aguento olhar para eles, mas eles continuam lá na varanda. Infelizmente, não vão sumir apenas por não querer vê-los. Não vão deixar de existir só pela minha vontade de que não existam. Vão continuar lá na varanda, mortos e pesados. Não posso com eles.

dead_plant_in_pots

Eu tenho quinze vasos mortos na varanda de casa. Não aguento olhar para eles, mas eles continuam lá na varanda. Infelizmente, não vão sumir apenas por não querer vê-los. Não vão deixar de existir só pela minha vontade de que não existam. Vão continuar lá na varanda, mortos e pesados. Não posso com eles. Lá na varanda, que nem é propriamente uma varanda.  Estou sendo gentil com aquela que não é bem uma varanda. Tento, ao menos, ser gentil porque não foi a varanda que matou os vasos. Vasos vivos têm plantas, se as plantas morrem os vasos morrem também, por isso tenho tantos vasos mortos na varanda de casa. Mas eu sei que não foi a varanda, nem a sacada, nem a casa onde os vasos mortos estão. Varanda onde eu não quero mais passar, pra onde eu não quero olhar. Na verdade, são mais de quinze vasos mortos, são mais de 360 deputados que cortam plantas e matam vasos. E vão continuar lá, pesados, mesmo que eu me recuse a vê-los. São muito mais que quinze vasos mortos. Muito.

 

Aquele A que incomoda

Elas então fizeram um cartaz e colocaram no corredor da faculdade. No dia seguinte, o A tinha sido rasurado, alguém o transformou em O. O que leva alguém a escrever um O por cima de uma A?

aaaaaaaa

Pai, eu já sei o que eu quero ser quando eu crescer, disse a menina.

Eu quero ser presidenta.

O pai respondeu que presidenta não existe, que no máximo ela seria presidente. No máximo.

A menina se calou, mas muitas mulheres se tornaram presidentas.  Presidenta, assim com A.

Mas o A de presidenta incomodou demais e foi ignorado, com a desculpa mais ignorante ainda de que um A ofende a língua portuguesa. Língua portuguesa que registra o vocábulo presidenta desde 1872, as lexicógrafas do Grupo Aurélio já explicaram.  Mas a fé na gramática é cega e meio burra. Até quando teremos tanta fé na gramática?

Pai, eu já sei o que eu quero ser quando eu crescer, disse a menina.

Eu quero ser poeta.

O pai respondeu que ela deveria querer ser poetisa. Poetas são homens.

A menina se calou, porque sabia que ela já era uma poeta, poeta.

Professor, queremos estudar as filósofas, disseram as estudantes. Assim, filósofAs.

O professor não deu ouvidos. Ninguém deu ouvidos.

Elas então fizeram um cartaz e colocaram no corredor da faculdade. No dia seguinte, o A tinha sido rasurado, alguém o transformou em O. O que leva alguém a escrever um O por cima de uma A?

As mulheres querem ocupar a política, política sempre foi com A. Ufa, que sorte. Sorte? Assim, facilita. Facilita?

Por isso, nasce uma #partidA política.

 

 

 

As mordidas

Um menino morto, outros meninos mortos, por engano, e todos aceitam o engano. Nenhuma comoção, nenhum movimento em favor de acabar com os enganos. Aceitamos mortes por engano. Não a mãe do menino morto por engano. Não as mães que perdem filhos por engano.

ryan hewett
de Ryan Heweet 

Domingo de manhã, abro o feed de notícias pelo celular, antes mesmo de me levantar. Um péssimo costume. O primeiro título que leio trata da morte, por tristeza, da mãe de um menino morto, por engano, pela polícia. Mais um menino morto, por engano, por uma polícia que costuma se enganar com frequência, quando se trata de uma cor de pele. Uma mulher alegre, forte, que sempre superou os obstáculos da vida, sempre venceu as batalhas, dizia o texto, até seu filho ser morto, por engano.

Não foi por engano que ela morreu de tristeza. Não foi por fraqueza. Não foi por engano que seu filho morreu. Não foi. A dor daquela mulher me acompanhou em cada lágrima, que eu não tive como conter em um domingo de manhã. Eu não sou mãe, eu não sou negra, não sei me aproximar dessa dor senão como pessoa branca, ou seja, distante. Diante da consciência da tristeza que mata, não por engano, eu senti uma mordida e vi as marcas dos dentes, vi uma ferida que não foi no meu corpo, que estava tão longe de me atingir, branca que sou, mas era também em mim, sem o meu sangue escorrer.

Engano, tristeza, impotência, racismo.

Um menino morto, outros meninos mortos, por engano, e todos aceitam o engano. Nenhuma comoção, nenhum movimento em favor de acabar com os enganos. Aceitamos mortes por engano. Não a mãe do menino morto por engano. Não as mães que perdem filhos por engano. Nem mães, nem pais, irmãos, avós, tios, primos, amigos. Eles, sim, viram escorrer o sangue da mordida. Porque o engano é a boca que morde. O engano é a boca do racismo. A injustiça que abocanhou aquela família e muitas.

A injustiça tem braços, pernas, boca e olhos bem abertos, olhos que diferenciam a cor da pele. A injustiça tem dentes, caninos afiados, que alguns chamam também de engano. Um gigante com a boca cheia de dentes que deixam marcas de mordidas, feridas e mortes em tudo, em todos, até naqueles que se sentem protegidos em fortalezas de privilégios. E vejo que meus privilégios também me anestesiam, por isso senti a mordida, mas não senti meu sangue escorrer.

O engano vai da boca aos dentes do racismo, das justificativas torpes, das mortes por engano, engano que não se pune. Ela morde, mastiga, cospe e repete. Separa a pessoa em pedacinhos, retira a pessoa dela mesma, dissocia a mulher dela mesma. Morde, mastiga, cospe e repete. Aniquila a alma, o desejo de vida. Não há corpo que suporte uma alma assassinada a mordidas pelo racismo velado de um Estado. Morde, mastiga, cospe e repete. Ruminante, vai até o fim, até espoliar tudo daquele corpo, daquela vida, daquela mulher que o gigante quis fazer aceitar, quis obrigar a aceitar um engano. Não, mas a mãe não mordeu nem engoliu o engano. Ela não engoliu, a custo de morte, para que ninguém engula mais.

Texto originalmente publicado em Ponto Crítico: http://pontocritico.net.br/post/as-mordidas

O medo e o que fosse possível

E o medo vence, ou melhor, vai vencendo em cada esquiva fóbica. A esquiva inglesa. A nosso esquiva fóbica de cada dia. A senhora sabia que preconceito tem fobia de sufixo. Ódio tem fobia de sufixo.

gabriela handal
de Gabriela Handal (2015)

A senhora queria parar um segundo entre os pensamentos, se isso fosse possível, para encontrar o que fica ali naquele entre, se isso fosse possível. Ela desconfiava, tinha um palpite. Ali deve demorar o medo. O medo vai costurando tudo, até se tornar imperceptível, quase invisível. Se isso fosse possível, não daria para ver. A senhora guardava a sua coroa e via indiferença, que é um rastro do medo. O medo não permanece, está no seu indo, indo, indo, envolvendo, endo, endo. Na verdade, ele não fica, ele não fica no entre, ele vai passando pelos entres. E o medo vence, ou melhor, vai vencendo em cada esquiva fóbica. A esquiva inglesa. A nosso esquiva fóbica de cada dia. A senhora sabia que preconceito tem fobia de sufixo. Ódio tem fobia de sufixo. O medo é uma saída perigosa. Saída para a cegueira, até cairmos todos no movimento do medo. Medo in progress. Talvez o medo seja um gerúndio, se isso fosse possível. 

Se isso fosse possível, o amor também seria.